Maurício Tragtenberg - Textos Diversos X - Rosa Luxemburgo e a Crítica aos Fenômenos Burocráticos (e outro) I
Rosa Luxemburgo e a Crítica aos Fenômenos Burocráticos:
458 - Texto publicado em 1991. Sobre a socialdemocracia: … Em segundo lugar, tem tanto a ver com Marx como minha avó tem a ver com a bicicleta ou a eletricidade. Os social-democratas têm uma origem lassaliana, especialmente na Alemanha, em termos de socialismo nacional. Basta ver a correspondência de Marx para ver que ele, Lassalle, era mais bismarckiano do que propriamente marxista. (...) Esta, uma máquina imensa criada entre 1880 e a Primeira Guerra Mundial, na República de Weimar, irá continuar, porém cada vez menos social e cada vez mais democracia, uma democracia bem à moda da casa como sempre houve na Alemanha, que sempre foi um país de súditos, nunca um país de cidadãos, porque lá a revolução burguesa não teve a radicalidade dos Estados Unidos, da França e da Inglaterra; também lá o liberalismo era como no Brasil, um liberalismo para inglês ver.
459 - Aliás, Rosa Luxemburg tem um belo texto sobre o cristianismo primitivo quando era cristianismo. As Igrejas existem para salvar as almas, teoricamente. Mas, no processo de salvação das almas, criam uma burocracia de coroinhas, padres, bispos, arcebispos, cardeais e papas. E o que ocorre? O meio fica fim; e o fim é esquecido.
460 - Imaginem que na II Internacional havia cidadãos como Bernstein e Van Kohl, que pregavam o colonialismo socialista! Mas não é só o caso da Alemanha.
461 - Ebert, um operário. Foi nada mais nada menos do que um dos assassinos indiretos de Rosa Luxemburg e encaminhou a revolução alemã para os trilhos da lógica do capital. Então, às vezes, eu me pergunto se é tão importante haver um operário na presidência de uma república capitalista. Sinceramente, tenho grandes dúvidas a respeito.
462 - Os direitos sociais são ganhos reais da classe operária européia sob a social-democracia. Mas é claro que são instrumentos de legalização dessa classe. Edelman, um jurista francês, escreveu A legalização da classe operária, livro em que mostra quantas vezes a legalização pode significar a cooptação dos dominados, a integração na máquina burocrática estatal e a conversão das grandes idéias de mudança num cemitério de esperanças perdidas.
463 - Barrington Moore, um americano sério, de formação marxista, que tem um trabalho notável, Injustiça, cujo subtítulo é “O que leva as pessoas a aceitar a dominação e o que leva as pessoas a se opor à dominação”. Ele reconstrói o quadro da revolução alemã de 1918, baseado em biografias de trabalhadores alemães. O trabalhador alemão sempre teve um nível cultural alto, e era comum escrever sua autobiografia. Quando eclode a revolução de 1918, os mineiros alemães tomam a frente e formam um exército vermelho. Lutam até o fim. Mas os metalúrgicos não participam com essa intensidade. Barrington mostra, através da autobiografia dos metalúrgicos alemães, e existência de um certo conservadorismo na classe operária e que, nesse conservadorismo, ele clama por proteção estatal via social-democracia. Todo processo social é ambíguo: tem um lado de verdade, quer dizer, realmente a ala direita da social-democracia que encaminhou a revolução para os trilhos do capital teve um certo apoio de algumas camadas dos trabalhadores alemães. Isso não quer dizer que a classe, no seu conjunto, o apoiasse, senão não haveria nem revolução. Barrington Moore mostra que os mineiros do Ruhr tomam a vanguarda e formam os exércitos vermelhos, ao passo que o pessoal metalúrgico, muito mais conservador, aguarda as palavras de ordem dos chefes da social-democracia, Ebert, Noske, Scheidemann e outros, os chefes burocráticos da social-democracia.
464 - Todavia, se analisarem duas críticas centrais de Rosa, tem-se o seguinte: o sindicalismo puro não é caminho do socialismo. O sindicato existe como um meio de defesa do trabalhador contra o capital, e não mais do que isso. O sindicato existe para preservar o setor dois da economia. Criar o consumidor que, via aumento de salário, vai consumir mais produtos do setor dois, o setor de bens de consumo. E ponto final. E o que é que nós vemos hoje? Realmente essa panacéia de que sindicato, dentro da linha revisionista, poderia ser a ante-sala do socialismo, o sindicalismo em si, está desmentida pela realidade do século XX, em que temos, hoje, uma coisa que no tempo de Rosa estava em formação: o capitalismo sindical. Este é uma formação capitalista em que o trabalhador contribui indiretamente para as grandes burocracias sindicais, que se tornam donas de bancos, jogam no mercado de ações e têm lojas de departamentos e fábricas. (...) Qual é a origem disso? É a Istradut, a central sindical de Israel, fundada em 1920, dois anos depois da revolução russa e , portanto, vinte e poucos anos antes da criação do Estado de Israel. Essa central sindical já admitia o capitalismo sindical. … Cheguei a encontrar em São Paulo um dos líderes dessa central – eles têm fábricas, lojas, jogam na bolsa e têm até um departamento sindical! Perguntei-lhe: “Ótimo, mas como é que vocês defendem o trabalhador, vocês têm tempo para isso?” Disse-me que tinham uma pessoa encarregada de defender a classe operária. Como dizia Camões, é muito amor para tão curta existência... Mas esse capitalismo sindical é uma realidade hoje na França e na Alemanha. Nas Estados Unidos nem se fala. As centrais sindicais são grandes empresas. Há grandes burocratas com grande poder de barganha no quadro do capitalismo.
465 - Denuncia também o cooperativismo e o parlamentarismo.
466 - Em segundo lugar, a luta parlamentar cria muito mais ilusões do que ajuda na luta.
467 - O parlamento pode ser um vínculo de ascensão social para a pequena burguesia e, se se entra por um partido de esquerda, não se tem sentimento de culpa, porque há a estrela vermelha que limpa qualquer culpa.
468 - Um dado central, patrimônio do movimento socialista em geral, é a exigência da coerência entre discurso e prática. Não é possível ser altamente avançado como homem público, mas bater na esposa e escravizar os filhos na vida privada. O que se é na vida privada é a base do que se vai ser na vida pública. Não há dúvida de que um tirano nas relações diretas procurará, nas posições de poder na vida pública, tiranizar os outros.
469 - Critica o fetichismo da organização: Toda organização é meio para realizar fins.
470 - Rosa não era anarquista, mas... Quando responde a Lênin que “os erros do movimento de massas são mais importantes para a classe operária que a infalibilidade do maior comitê central”, tem a razão histórica a seu favor.
(continua...)
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